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Pensamentos Nómadas

Nomadic Thoughts - Pensées Nomades - Кочевые Мысли - الأفكار البدوية - 游牧理念

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Panorâmicas da Tailândia (2015)

 

Fotografia

 

FOTOGRAFIAS PANORÂMICAS INTERACTIVAS

 

Prachuap Khiri Khan 1

 

Prachuap Khiri Khan 2

 

Prachuap Khiri Khan 3

 

 

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Luís Garcia, 28.05.2016, Chengdu, China

 

 

 
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Panorâmicas do Camboja (2015)

 

Fotografia

 

FOTOGRAFIAS PANORÂMICAS INTERACTIVAS

 

Phnom Penh 1

 

Phnom Penh 2

 

 

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Luís Garcia, 28.05.2016, Chengdu, China

 

 

 
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Panorâmicas do Vietname (2014-15)

 

Fotografia

 

 

FOTOGRAFIAS PANORÂMICAS INTERACTIVAS

 

Da Nang

 

Dai Lanh

 

Ho Chi Minh

 

 

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Luís Garcia, 27.05.2016, Chengdu, China

 

 

 
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Desespero mediático 8 - Telesur censurada na nova Argentina

 

 

DESESPERO MEDIÁTICO 8.jpg

 

Luís Garcia POLITICA SOCIEDADE

 

A CENSURA ANDA NA MODA

Em Março passado o governo do democratíssimo estado letão, onde pessoas etnicamente russas nascidas na Letónia não têm direito à cidadania letã, lembrou-se de censurar a cadeia de notícias russa Sputnik, sobre o pretexto fascista de que as notícias da agência Sputnik põem em risco a segurança do país! Ora essa, hehe! Caro leito, aposto que não ouviu de todo falar de tão flagrante violação da liberdade de expressão dentro do espaço europeu, pois não? Claro que não, pois censura editorial é coisa que também não falta nos países lusófonos beija-cus do Império do Caos e da Barbárie! Felizmente, aqui, não censuramos nada: Moscow Accuses Latvia of 'Blatant Censorship' Over Sputnik Ban.


Em Abril passado o estado terrorista turco, sim esse estado que em nada se distingue do ISIS, também se lembrou de censurar a agência noticiosa Sputnik. Porquê? Porque sim. Porque num estado autoritário, controlado por um governo ilegal defensor de baboseiras como a "supremacia da raça turca", não é sequer necessário explicar actos de censura através de frases absurdas e palavras ocas. E deixe-me adivinhar uma vez mais caro leitor: aposto que não ouviu falar nos seus media nacionais deste flagrante acto de censura, pois não? Ahhh, que desespero mediático! Enfim, aqui fica a informação, caso lhe interesse: Russia’s Sputnik news website abruptly blocked in Turkey after ‘legal consideration’.

 

E JÁ NÃO É DE AGORA!

O tempo passa rápido e já lá vão, se a memória não me trai, 3 anos desde que a Eutelsat, empresa francesa de comunicação por satélite presidida (por acaso) por um senhor que se diz judeu, eliminou por completo dos seus serviços de televisão por satélite um canal de notícias em língua inglesa. Querem tentar adivinhar? Não, não foi a BBC, nem a SkyNews, nem tampouco a sua irmã gémea AlJazeera. Foi a PressTV, o canal de notícias em inglês da agência de notícias do estado iraniano, claro está. Porquê? Porque se o Ocidente+Israel são o bem e o Irão é o mal, necessariamente o bem diz a verdade enquanto o mal mente, daí que seja uma perca de tempo para os telespectadores e um desperdício de recursos para a humanidade transmitir mentiras emitidas pelo canal do mal encarnado!

 

Tal como foi um excelentíssimo serviço para a humanidade o bombardeamento da sede da televisão estatal jugoslava e consequente assassínio a sangue frio de dezenas de jornalistas sérvios que mentiam de manhã à noite, contado absurdidades do género "os EUA estão a bombardear-nos ilegalmente e nós impotentes assistimos de braços cruzados"! Mentiras dessas não merecem ser transmitidas, mesmo que o estado que bombardeia sedes de televisões alheias anuncie eufórico que "aquilo que mais deseja é espalhar a democracia por esse mundo fora" com a qual virá, por acréscimo, a total liberdade de expressão para aqueles que se decidam por se exprimir em favor do Império do Caos e da Barbárie. Basta ver o que me disse à pouco um amigo sérvio aqui em Chengdu: "ah, eu acho que é melhor fazer parte da NATO, pois assim ficamos descansados e não tememos mais ser vítimas de bombardeamentos da NATO. Se estivermos do lado deles, serão outros os estados bombardeados e não a Sérvia". Exacto, tenho constatado que agora são outros que não Sérvia! Um tio meu antes também criava ovelhas, lá na minha aldeia, e estas também tinha o hábito de dizer "méééééé"!

 

HUGO CHÁVEZ CENSURADOR

Esta semana a censura atacou a Telesur, uma criação visionária de Hugo Chávez. Mas primeiro recuemos um pouco no tempo, de forma a podermos fazer comparações objectivas baseadas em factos indesmentíveis. 

 

Estou certo que o meu caro leitor se lembra perfeitamente de há uns anos atrás se ter tornado moda apelidar a Venezuela, um dos mais democráticos estados do planeta, de "ditadura", assim como se tornou recorrente chamar de "ditador" Hugo Chávez, a pessoa que mais eleições e referendos democráticos ganhou na história da humanidade! Isso, de "ditador"! E se fizerem um esforçozinho são capazes de desenterrar da memória aquela mega-campanha de desinformação dos nossos medias beija-cus, quando quiseram nos fazer crer que Hugo Chávez havia censurado um canal privado venezuelano. Quiseram e conseguiam. Afinal Goebbels, o ministro da propaganda de Hitler tinha toda a razão quando afirmava que "uma mentira muitas vezes repetida se torna numa verdade"! Até eu acreditei, confuso e desiludido!

 

O que não sabia na altura é que na Venezuela haviam mais de 100 canais de televisão privados e um único estatal. E não sabia que o canal privado em risco de encerrar, corria tal risco porque se recusava a cumprir a lei audiovisual do país que obriga a que os canais nacionais apenas transmitam conteúdos para adultos depois das 10 da noite. E não sabia que esse canal privado, cuja programação continha 94% de conteúdo produzido na Venezuela, insistia em transmitir ilegalmente conteúdo para adultos antes das 10 da noite apoiando-se na lei que diz que os canais de conteúdo estrangeiro não são obrigados a seguir a restrição. Na altura os media portugueses diziam-me que o encerramento potencial do canal se devia a um ataque pessoal do ditador democraticamente eleito Hugo Chávez, o que me deixava perplexo. E retransmitiam de forma mal intencionada excertos de discursos do ditador democraticamente eleito que me levavam a acreditar que sim, que era birra pessoal de um possível tresloucado.

Pregúntese cualquiera de ustedes, compatriotas, hombre o mujer, joven que me lees: ¿Qué hacer cuando un canal de televisión no quiere cumplir las leyes? ¿Cuándo un canal no se pone en consonancia con la Ley de Responsabilidad Social en Radio y Televisión? ¿Qué hacer cuando un canal pretende pasar por internacional, con un 94 % de producción nacional, burlándose de la legalidad vigente¿Por qué este canal no toma el ejemplo de infinidad de señales internacionales que salen a diario sin problema alguno? ¿Por qué sus directivos no comparecen ante los entes correspondientes y consignan los documentos requeridos? El cuerpo legal del país no puede funcionar de acuerdo a los caprichos de la patronal mediática. No podemos ser complacientes con la ilegalidad, ni con la violencia desestabilizadora.

(em Desde la Primera Línea, pág. 355,  de Hugo Chávez)

 

No entanto, para minha mágoa, só muito mais tarde visionei os discursos integrais de Hugo Chávez e me apercebi que as partes cortadas provavam que o ditador democraticamente eleito não ameaçava encerrar coisa nenhuma, antes insistia que se a birra (politicamente motivada) do canal privado (propriedade daqueles que hoje realizam a sabotagem da economia venezuelana e que contratam mercenários para o papel de estudantes-manifestantes-assassinos) continuasse, a autoridade nacional reguladora dos meios audiovisuais (e não Hugo Chávez) acabaria por se ver obrigada a encerrar o canal, o que acabou por acontecer, para deleite daqueles que prepararam esta granada mediática e que ansiavam fazê-la explodir mediaticamente nas mãos de Hugo Chávez!

 

PROPAGANDA INFERNAL

O canal foi encerrado, tudo bem, "maldito ditador", e quê? Que se provou? Que a ditadura-democrática venezuelana censura? Não, não, não sejamos inocentes! Prova-se, sim, que os media beija-cus do Império mentem, deturpam e censuram, e que ao fazê-lo confundem e enganam aqueles que os seguem, fazendo-os acreditar em papões que não existem, nesse processo contínuo de adestramento e infantilização da população mundial para benefício dos donos do Império que tanto anseiam por pôr as garras ensanguentadas sobre a maior reserva de petróleo do mundo: a venezuelana!

 

Senão, a crer que o regime de Hugo Chávez censurava e que o de Maduro censura, que dizer da imensa liberdade que os media corporativos privados têm na Venezuela para: apelar ao golpe de estado, apelar à morte do chefe de estado, proferir calúnias contra o chefe de estado, emitir foto-montagens e vídeo-montagens denegrindo o chefe de estado (incluindo um aterrorizador Chávez-Hitler), ameaças premonitórias de golpe de estado nas vésperas de um golpe que acabou por acontecer pelas mãos da CIA em 2002! Tudo isto se passou e NENHUM, NENHUM foda-se (apetece-me dizer mesmo foda-se), NENHUM destes merdosos e traidores media serventes do império foi encerrado na Venezuela! Então como? E onde ficou a censura? Eu sei onde ficou, ficou nas bocas dos beija-cus da Rede Globo, da RTP, da SIC, da TVI e por aí fora, nessas bocas que vomitam veneno em forma de palavras, e que se calam perante verdades indesmentíveis, que se calam perante factos indesmentíveis,  que se vendem que nem prostitutas no Intendente (eu respeito prostitutas e prostitutos, jornalistas prostituídos é que não, porque sou mau). Felizmente há bons jornalistas, poucos mas bons, cujo o trabalho jornalístico muitas vezes é precisamente o de denunciar a prostituição jornalística ocidental em prol do Império. Um óptimo exemplo é John Pilger e a sua imensa obra. Em The War On Democracy de John Pilger pode o leitor assistir de forma gratuita, e se tiver paciência, a alguns dos exemplos da imensa e inigualável liberdade de expressão que têm os media privados venezuelanos, por muito que a agência mafiosa-sionista "Repórteres Sem Fronteiras" minta dizendo o exact oposto! Tentem esses prostituídos jonalistas privados ocidentais, nos seus merdosos canais de notícias privados, se exprimir tão livremente como os seus colegas privados venezuelanos, e verão quantos anos haverão de passar fome desempegados ou, mesmo, quanto anos passarão atrás das democráticas grades das prisões ocidentais.

 

The War On Democracy

 

TELESUR CENSURADA

E por fim, vamos à censura do momento. O novo governo argentino, democraticamente eleito pelo que os media privados fizeram entrar à força nas cabeças do povo, e dirigido por Mauricio Macri, o mais recente empregado-servente do Império do Caos e da Barbárie, lembrou-se de quebrar os acordos que o governo argentino anterior tinha realizado com a Telesur, que é como quem diz, lembrou-se de censurar o canal em espanhol da agência internacional de noticias do estado venezuelano. A partir de agora a Telesur deixa e ser transmitida em sinal aberto pela infra-estrutura de comunicações estatal Argentina, e os distribuidores privados de conteúdos por cabo deixam de ser obrigados a incluir a Telesur na sua grelha, ou seja, vão eliminá-la!

 

Ao contrário do canal privado venezuelano que anos antes foi encerrado por não cumprir as leis da autoridade reguladora desse país, agora, o encerramento da Telesur na Argentina não acontece por razões técnicas e/ou legais, mas sim por uma claríssima decisão política de quem governa mediante ordens dos EUA. Agora sim há que falar de censura, de controlo mediático, de violação da liberdade de expressão! Agora sim deviam os jornalistas do mundo inteiro revoltar-se perante a censura descarada dos seus colegas de profissão da Telesur! Mas não, nunca, porque não são jornalistas esses parasitas vendidos que servem o império quais cães de caça amestrados, obedientes, servis e alienados, a partir das suas redacções com cheiro a vaselina, a podre e a casa de alterne de 5ª categoria! E não, não-jornalistas auto-censuradores portugueses ou brasileiros não poderão nunca sentir empatia por Jornalistas da Telesur censurados. É por isso que nunca ouviu nem nunca ouvirá falar, caro leitor, da censura da Telesur numa merda de canal de (des)informação como a SIC Notícias ou Correio a Manhã, esses tão amados meios de estupidificação mediática em massa!

 

Fica a notícia da Telesur sobre a censura da Telesur na Argentina:

 

Luís Garcia, 24.05.2016, Chengdu, China

 

 

 Desespero mediático 1 - Síria

 Desespero mediático 2 - Turquia

 Desespero mediático 3 - Diário de Notícias

 Desespero mediático 4 - France 24

 Desespero mediático 5 - Palmira

 Desespero mediático 6 - RTP 1ª parte

 

Fontes:

Moscow Accuses Latvia of 'Blatant Censorship' Over Sputnik Ban

Russia’s Sputnik news website abruptly blocked in Turkey after ‘legal consideration’

Noam Chomsky: salida de teleSUR de Argentina es desafortunada

- documentário de John Pilger: The War on Democracy:

Proven Oil Reserves by Country

 

 

 

 
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A influência do artista

 

 

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RICARDO MINI copy  SOCIEDADE 

 

"O humorista é deprimido porque, tal como o escritor ou o músico, vê as coisas de uma maneira mais profunda do que a maior parte da sociedade. Os artistas são mais sensíveis e forçam-se a ver aquilo que passa despercebido aos olhos do resto das pessoas. O artista inspira-se nas pessoas e naquilo que está a sua volta, logo tem de estar mais atento. Estando atento, vê-se coisas que não se quer ver. Quando se vê o que não se quer ver, fica-se deprimido. (...) Quanto mais culto fores, mais fácil é fazer humor."

 

Pronto, vamos lá outra vez andar a justificar ter a cabeça cheia de merda porque se vê coisas feias, para poder andar a encher também a cabeça dos outros de merda. Eu já disse, e repito. Os artistas são uns imbecis. Os artistas e, tendencialmente, os filósofos. Os artistas não produzem nada de útil. Dizem que os artistas produzem algo - a arte - que pode ajudar a abrir a mente. Não, pode é ser uma influência sobre os indivíduos diferente das influências que a cultura hegemónica promove. Mas, isso não tem de ser necessariamente bom. E, normalmente, não é. A cultura hegemónica não esgota em si tudo aquilo que o ser humano pode criar de culturalmente negativo para a saúde mental de alguém. 


Os artistas são como os religiosos. Aliás, por isso é que têm de andar a criar tretas como o romantismo, como o impressionismo, como o surrealismo, como o realismo mágico. Se ser moralistas resolvesse algum problema, então já estariam todos os problemas da humanidade resolvidos. As religiões predicam comportamentos morais, e desde há pelo menos 2000 anos que se anda para aí a dizer para nos amarmos uns aos outros. E, até agora, que efeito é que isso surtiu? Nenhum. Se a humanidade progrediu foi sempre graças à ciências e à sua aplicação prática, a tecnologia. Se estivéssemos à espera que as tretas bonitas que alguns fulanos decidem inventar resolvessem problemas, então ainda agora éramos caçadores-recoletores. Aliás, para começar nem tinham sido inventadas. Porque esses senhores esquecem-se que os seus antepassados, os ociosos sedentários que tiveram tempo para se sentar a pensar durante muito tempo em coisas inventadas por eles mesmos com base no tratamento que davam aos estímulos externos que recebiam, nunca o poderiam ter feito se nunca tivessem criado a tecnologia necessária para criar as primeiras ditas civilizações e uma cambada de desgraçados andar nas plantações para encher o bucho dos gordos alapados à cadeira a inventar tretas para contaminar a cabeça dos outros. 


Depois ora dizem que a humanidade é de uma maneira - e chamam-lhe "natureza humana" -, ora dizem que deveria ser de outra, mas nunca apresentam um projeto baseado em conhecimento colhido de forma sistemática e respeitando o modelo científico para atingir esses mesmos estados humanitários que tanto predicam. Então, é o quê, falar por falar?


Hoje sei que nunca nenhum artista me ensinou o que quer que fosse. Aliás, nem é do seu interesse fazê-lo. O seu interesse é fazer os outros terem contacto com as merdas que lhes enchem a cabeça e para as quais precisam de uma via de escape. Por isso, dizem que precisam de se exprimir de uma determinada maneira, de "criar". Não, não precisam, precisam sim de condições de vida salubres para se desembaraçarem de fatores de risco para o desenvolvimento de patologias mentais. E não, não as predico de patológicas por serem fora da norma, mas sim por provocarem claros danos ao próprio e, infelizmente, aos outros. 


Se estivessem genuinamente interessados em fazer progredir a humanidade e em contribuir, dentro das suas limitações como indivíduos que são, em melhorar as condições de vida para as pessoas, os animais e o planeta, então não desperdiçariam tempo a criar tretas, mas canalizariam a sua atividade para o estudo sistemático desses mesmos problemas, para lhes encontrar as causas e desenvolver medidas para as combater e/ou reverter. Não o fazem, porque na verdade não lhes interessa. Aliás, normalmente, resolver problemas não é intuito dos artistas, porque se contribuíssem para que qualquer pessoa pudesse ter as mesmas oportunidades que eles - que normalmente tiveram muitas, aliás tantas que é por serem uns privilegiados que é por isso que desenvolvem tédio e se dedicam a criar patranhas -, então perderiam para sempre o seu estatuto. O seu estatuto dissolver-se-ia numa massa de genialidade e talento que despontariam em cada indivíduo quando colocado em circunstâncias favoráveis ao seu desenvolvimento.

 

Ricardo Lopes

 

 

 
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À boleia entre ilhas - Parte 3/5

 

 

BOLEIAS – EPISÓDIO 6

 

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bw VIAGENS Luís Garcia

Esta insatisfação, não consigo compreender, sempre esta sensação, que estou a perder. Tenho pressa de sair, quero sentir ao chegar, Vontade de partir, p’ra outro lugar. (Estou Além, António Variações)

 

À BOLEIA ENTRE ILHAS (Indonésia, 2011) – A principal atracção de cartaz era sem dúvida o exótico desequilíbrio de forças em jogo, razão que atraiu a aldeia em peso para assistir à luta. De um lado um italiano de um metro e noventa de altura, bem musculado e ignorante das técnicas de artes marciais da cultura Sakak. Do outro, uma homem com a típica fisionomia de Lombok (metro e meio de altura, magrinho) e famoso entre os seus semelhantes pelos seus dotes marciais. Enrico garantiu-me ser uma pessoa pacífica e pacifista, que apenas se tinha metido em tamanha embrulhada por amor à bela indonésia, menina dos seus olhos! Além do mais admitiu que aquando da decisão de reatar a luta ritual tinha feito uma interpretação muito ingénua daquilo em que acabava de se meter. E persistiu com essa ingenuidade até ao início da luta.

 

Contou-me Enrico, empolgado pelas memórias entretanto desenterradas, que quando foi dada ordem para o combate começar ele se manteve imóvel, receoso de magoar aquela pessoa de aparência tão frágil com um cacetada demasiadamente forte desferida com o bastão de bambu bem mais grosso do que ele tinha imaginado quando lhe descreveram as armas de combate. Supondo um luta mais simbólica e menos viril, Enrico cria que os bastões fossem da largura de um dedo ou dois e não, como veio a descobrir já na arena, da largura de um braço! Vários minutos passaram-se sem que ele nem o irrequieto indonésio tenham tentado coisa alguma até que, incitado pela desesperada plateia, este último precipitou-se sobre o italiano e desferiu-lhe um violentíssimo golpe nas costas que o fez encolher de dor e de orgulho ferido. Se Enrico se sentia confuso pelos vários minutos passados sem que o indonésio houvesse realizado manobra ritual alguma que o guiasse e o permitisse acompanhar a cerimónia com recurso ao mimetismo do sei oponente, muito mais confuso ficou quando levou com aquela pancada.

 

Crendo acreditar que o ataque agressivo tinha sido uma consequência dos eufóricos incitamentos do público, Enrico manteve-se calmo e sereno, esperando a iniciativa do adversário, o qual desferiu mais um preciso golpe com o bastão de bambu no joelho direito do italiano. Por momentos ficou caído no chão, gemendo de dores “horríveis”, não conseguindo de todo movimentar a sua perna direita. O indonésio esperou largos minutos, calmo e sereno, que Enrico se levantasse do chão. Quando o fez finalmente, já convencido do realismo da luta e fora de si, lançou-se enfurecido direito ao seu pequenote adversário e não mais parou de lhe bater e espancar até que a audiência os separou, vendo o indonésio já sem reacção. A mesma audiência recolheu o derrotado quase inanimado para ser assistido. Enrico vitorioso, foi convidado pelo homem mais velho ancião da aldeia a pegar na mão da sua futura mulher que assistira nervosa ao combate e declarou o divórcio consumado!


Assim que acabou o relato da sua surreal aventura, perguntei-lhe se me sabia dizer a localização dessa aldeia Sasak. Até lhe mostrei o meu mapa improvisado desenhado no diário de viagem. Pela explicação de Enrico, não ficava muito longe da zona onde eu me perdera e onde acabei por acidentalmente ir parar a Nangong, a pequena aldeola na costa onde encontrei o grupo de crianças (ver capa do artigo Um vida num só dia ). Surpreendido pela coincidência, liguei o computador portátil para lhe mostrar as fotografias tiradas com o grupo de miúdos junto à praia. Ainda mais surpreso que eu, Enrico garantiu-me reconhecer o miúdo de olhos esbugalhados e sem t-shirt, filho de um conhecido! Ah, e eu que havia acreditado ter sido o primeiro ocidental que aquelas crianças haviam visto! Afinal, tinham vindo tocar no meu corpo com os dedos esticados, hesitantes, como se confrontassem uma assombração! Contei este detalhe do encontro a Enrico e ele respondeu-me que lhe parecia natural. Achava compreensivel que aquelas crianças se comportassem assim, mesmo que tivessem visto mais um ou outro alienigena como nós, não pela novidade mas sim pela extrema raridade de aparições similares! Fiquei convencido com o argumento.


Hoje Enrico vive com a sua mulher Sasak e uma filha bebé na ilha de Java. No início foi um choque civilizacional para ambos. Ela nunca tinha saído da região sul de Lombok onde nascera e não estava habituada a confrontar uma realidade da qual fazem parte electricidade, televisão e filas de trânsito. Para Enrico o maior choque foi ter passado os três primeiros anos da relação na aldeia da sua mulher, privado de tudo aquilo que ela ainda não conhecia, desesperado por não se nutrir em condições na maior parte do tempo lá despendido e traumatizado com a tortura que tinha sido coabitar com tanto mosquito à sua volta. Segundo me explicou, a sua permanência durante esse tempo tinha sido uma imposição dos chefes da aldeia, um género de período de união à experiência, findo o qual seria decidido em conselho se Enrico e a sua noiva poderia o não se casar e mudar para outro lado. Felizmente, a decisão final dos teimosos velhinhos foi-lhe favorável. Organizou-se o casamento de acordo com os costumes locais e finda a cerimónia os dois receberam autorização para partir. Perguntei.lhe se não teria sido mais fácil fugirem os dois a meio da primeira noite no seu jipe, em vez de passar o martírio que me contou. Enrico explicou-me que a dureza da experiência lhe tinha feito, vistas bens as coisas, mais bem do que mal. Tinha saído da aldeia Sasak mais forte psicologicamente, mais adulto e mais ciente da realidade dos indonésios que, não possuindo quase nada do mundo moderno, sabem tão bem viver naquelas latitudes (uma clara mais valia para que pretende passar o resto da vida naquele país. Além de todas estas razões, adiantou-me um outra. Passar aquele período de tempo no interior esquecido de Lombok, na terra natal da sua esposa, tinha permitido realizar uma transição mais fácil entre realidades muito distintas. Se não o tivesse feito, apostava Enrico sorrindo triunfante, provavelmente a relação não teria durado meses sequer e a jovem indonésia ficaria para sempre perdida e abandonada. Uma vez mais convencia-me com todo o seu elaborado discurso. Dei-lhe os meus parabéns pela bravura e ousadia, e confessei-lhe que embora muito aventureiro e destemido, nunca na vida eu teria a força mental e resistência física para me meter num filme daqueles!


Ainda quis continuar a enumeração de factores positivos, acabando com o sólido argumento que o seu nível já bom de indonésio tinha, após os três meses de quarentena, melhorado imenso, ajudando-o a adaptar-se ainda mais à realidade indonésia e tornando praticável uma relação com um mulher iletrada que apenas falava indonésio e sasak. À data do nosso encontro levava já sete anos vividos na Indonésia e vários anos (não me disse quantos) casado com a jovem sasak. Falava um indonésio fluente e de vocabulário mais extenso que a maioria dos indonésios que ele conhecia. Não, não deve ser treta. Indonésio é uma língua simples e relativamente fácil de aprender. Por outro lado, a maior parte ds indonésios tem um acesso limitado a um sistema de ensino já de si medíocre. Para um estrangeiro há sete anos na Indonésia, neste caso um italiano, habituado a falar várias línguas, amante da leitura, que fez questão de tirar vários cursos de língua indonésio e casado com uma indonésia, ter um elevado domínio da língua franca do país é tarefa realizável, sem dúvida nenhuma. Além da fluência, o que me impressionava mais quando o ouvia falar indonésio era a beleza sonora com que soletrava todas as sílabas e letras, tornando o seu discurso apelativo e mais fácil de seguir por um principiante de indonésio como eu. No fundo é natural, um falante nativo de uma língua tem sempre hábitos orais enraizados que torna difícil a compreensão por parte de um não-nativo. A diferença estava no perfeccionismo impressionante que Enrico havia alcançado e que ele orgulhoso não fazia tensão nenhuma de negar com falsa humildade. Para mim acabou por ser uma excelente oportunidade para melhor o meu nível de indonésio, uma espécie de curso intensivo sobre rodas, com a vantagem do professor ser fluente quer em indonésio quer em inglês, e falante nativo de italiano que deu jeito alguma vezes para completar explicações em situações em que um dos dois não entendera por completo o outro em inglês!


E assim nos entretemos boa parte do caminho, falando um pouco de tudo, inclusive de estórias de viagem minhas, as mesmas contadas neste blog. Quando Enrico apontou para uma placa de estrada onde estava escrito Kuta, não quis acreditar. Com tanta e tão interessante conversa, tínhamos já alcançado o sul de Bali e, eu, distraído, estava convencido que não tínhamos feito nem sequer metade do caminho! (em breve, na parte 4/5)

 

leia também: À boleia entre ilhas - Parte 1/5

 

Luís Garcia, 14.05.2016, Chengdu, China

 

 

 

 
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À boleia entre ilhas - Parte 2/5

 

 

BOLEIAS – EPISÓDIO 5

 

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bw VIAGENS Luís Garcia

Esta insatisfação, não consigo compreender, sempre esta sensação, que estou a perder. Tenho pressa de sair, quero sentir ao chegar, Vontade de partir, p’ra outro lugar. (Estou Além, António Variações)

 

À BOLEIA ENTRE ILHAS (Indonésia, 2011) – Muito simpático e sorridente apresentou-se como Enrico, um italiano há muitos anos emigrado na Indonésia. O seu destino final seria a cidade costeira de Ketapang, na ilha de Java, e a uns ridículos oito quilómetros da cidade onde morava o meu próximo anfitrião couchsurfer. E sim, claro, aceitou prontamente o meu pedido de boleia! Não consegui controlar o meu contentamento, que tremendo golpe de sorte e completa reviravolta em tão poucos segundos! De uma quase certa dormida ao relento no porto, ali mesmo, tinha passado para uma boleia até à porta da casa de um couchsurfer localizada numa outra ilha! Que filme!


Ouvindo-me falar assim eufórico, Enrico chamou-me a atenção de que haveria um senão. Parei assustado, ansioso por ouvir o resto da frase e cruzando os dedos mentalmente para que o “senão” fosse algo que estivesse aquém das minhas possibilidades. Como levou algum tempo a responder, adiantei-me afirmando que partilharia com todo gosto o custo do combustível, caso fosse essa a questão que o inquietava. Mas “não”, respondeu-me Enrico sorrindo. Boleia dar-me ia “também com todo o gosto e não queria receber nada em troca”. O problema, na sua perspectiva, podia ser o facto de eu não estar interessado em fazer a longa travessia que ele tinha planeado. Estávamos na costa este da ilha de Bali, na parte norte, e ele tinha de viajar até à ponta sul para tratar de uns negócios. Só no dia seguinte rumaria ao noroeste da ilha onde apanharia o ferry-boat que liga Bali a Java. Sincero, respondi-lhe que um mês antes tinha visitado o sul turístico de Bali e que tinha detestado a experiência. Por outro lado, entre perder uma noite a dormir naquele porto e passá-la a passear de jipe rumo à horrível Kuta, preferia a segunda opção. Contente com a minha resposta, Enrico convidou-me a entrar no jipe e confessou-me que estava muito contente por ter encontrado companhia para a monótona viajem que tinha pela frente.

 

“Que surpresa incrível”, pensei eu na altura. São de facto este tipos de experiências que um viajante anseia viver quando parte à aventura, o tipo de estórias que nos habituamos a ver nos filmes mas nunca nos chegam a acontecer. A diferença é que desta vez aconteceu mesmo!  E por falar em estórias que só aparecem no cinema, atentai no resumo que Enrico fez da sua vida de imigrante na Indonésia.

 

Sete anos antes, cansado da vida de dívidas, burocracias e permanente stress, situação padrão para a maioria da classe-média europeia, Enrico tomou a radical decisão de vender a sua loja de peixes de aquário e a sua vivenda comprada com um empréstimo que lhe levaria o resto da vida a pagar (nas melhores das hipóteses)! Vendeu ainda o carro, a mota e todos os restantes bens que possuía. Juntou todo o dinheiro na sua conta bancária e comprou um bilhete de avião só de ida para a Indonésia. O seu plano era brilhantemente simples. Em vez de passar o resto da sua breve existência importando peixes de aquário da Indonésia para Itália, emprego que mal lhe dava para acompanhar o ritmo de pagamento das sufocantes dívidas, passaria a exportar peixes de aquário da Indonésia para Itália, desfrutando de uma vida luxuosa, sem dívidas e habitando num país onde faz verão o ano inteiro! Os peixes de aquário seriam os mesmos, a diferença estaria em trocar de lado da barricada.

 

Enrico contou-me que os primeiros tempos lhe foram muito difíceis por inúmeros factores. A barreira linguística, a corrupção diferente da de Itália, o comportamento de clã fechado dos exportadores indonésios que tudo fizeram para lhes complicar a vida e convencê-lo a desistir da sua “tresloucada” ideia. Ah, e as montanhas burocráticas que teve de escalar, licenças de captura na Indonésia, licenças de exportação dos peixes indonésios, papeladas para receber autorização de entrada do seu produto na União Europeia, prolongamentos de vistos... Enrico enumerou uma lista imensa mas não vale a pena continuá-la. Durante muito tempo teve só despesas, grandes despesas, e nenhuns ganhos, enquanto lutava por instalar o seu negócio invertido. Já quase sem dinheiro chegou a pensar em desistir da sua atrevida aventura, e só não o fez porque pior que falhar seria ter de voltar para o “pesadelo da vida europeia”. Convenceu-se que havia de lutar até gastar o seu último euro, confiante que haveria de alcançar a merecida recompensa. E conseguiu-o. Hoje o seu negócio corre sobre rodas, não ganha fortunas mas aquilo que ganha chega-lhe para ter uma vida de sonho que a maioria dos europeus estão inclusive proibidos de a sonhar! Além disso, farta-se de viajar pela maravilhosa Indonésia em busca de novas fontes de peixes ou de novas espécies de peixes para o seu negócio. Viaja dentro do país por motivos profissionais mas, como bom viajante que é, tenta conciliar ao máximo os dois lados, trabalhando e ao mesmo tempo gozando a vida no seu “paraíso tropical”.

 

Passando da sua vida profissional para a sua vida pessoal, o relato disparou em excentricidade. Segundo me contou, um dia, quando viajava pelo sul da ilha de Lombok, apaixonou-se à primeira vista por uma mulher Sasak, o mesmo povo dos adolescentes que compartilharam comigo a sua bebida de arroz dias antes nessa ilha (ver estória Uma Vida Num Só Dia). A mulher tinha se casado à força quando ainda era adolescente (catorze anos), com um homem muito mais velho que ela. Agora que era adulta, o seu marido havia a abandonado e arranjado uma outra mulher. De acordo com as tradições da sua tribo, uma mulher não se pode divorciar sem que o marido a autorize e, enquanto for casada (mesmo com alguém que a largou na rua) não pode procurar outro homem. Daí que vivia abandonada e a sua sina era mendigar o pão nosso de cada dia junto dos restantes membros da comunidade. Enrico, que na altura já tinha uma boa fluência em indonésio, ao descobrir a trágica história de vida da mulher pela qual se encontrava perdido de amores, após vários dias nos quais a visitou regularmente, tomou a decisão de ir ter com os anciãos do clã em busca de uma preciosa informação.


Queria saber a todo o custo se haveria uma forma legal, dentro dos costumes locais, da pobre mulher se ver livre do seu amigo e poder se casar com uma outra pessoa. Em vez de lhe responderem à pergunta, informaram-no que naquele meio tão pequeno a sua interferência na vida monótona do clã tinha chamado a atenção de toda a gente, inclusive a do marido da pobre mulher que agora a queria de volta em sua casa. Enrico argumentou que aquele desejo súbito de reaver a mulher era absurdo e só provava a hipocrisia daquele ignóbil homem. Apelou ao bom senso dos anciãos e pediu-lhes uma solução que salvasse aquela mulher que já quase não vivia, que apenas sobrevivia, e que não estaria em condições psicológicas para voltar à casa do seu forçado marido numa altura em que tinha começado a sonhar de partir daquele inferno social na companhia do italiano. Concordando com Enrico na malvadez do ainda marido, os anciãos disseram-lhe que não podiam fazer quase nada. Que só ele poderia salvar a mulher, conquistando o direito de levá-la embora dali se derrotasse o ainda marido numa luta ritual. Marcariam para breve a luta, se assim o desejasse Enrico, mas advertiram-no que o seu oponente era famoso pela sua extrema habilidade na luta com bambu, enquanto que ele nem sequer imaginava de que forma se combatia. Decidido em salvar a mulher e "embriagado de paixão por ela", aceitou o desafio e pediu para que marcassem a data da luta com urgência.

Poucos dias depois, era chegada a hora da luta entre machos... (em breve, na parte 3/5)

 

leia também: À boleia entre ilhas - Parte 1/5

 

Luís Garcia, 08.05.2016, Chengdu, China

 

 

 

 

 

 
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À boleia entre ilhas - Parte 1/5

 

 

BOLEIAS – EPISÓDIO 4

 

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bw VIAGENS Luís Garcia

Esta insatisfação, não consigo compreender, sempre esta sensação, que estou a perder. Tenho pressa de sair, quero sentir ao chegar, Vontade de partir, p’ra outro lugar. (Estou Além, António Variações)

 

À BOLEIA ENTRE ILHAS (Indonésia, 2011) – No último dia na ilha de Lombok tinha planeado entregar cedo a scooter que alugara por 3 dias a um primo da empregada do meu anfitrião, o senhor Klaus. Tínhamos combinado se encontrar em frente da casa por volta das nove horas da manhã mas, como é tradição na Indonésia, o rapaz chegou muito atrasado. Apareceu depois das dez horas, deitando por terra o meu plano de apanhar o autocarro das 10 para o porto de Lembar. Como se não bastasse, quando fui tentar saber o horário de partida do próximo autocarro com destino ao porto, informaram-me que o próximo só partiria no dia seguinte à mesma hora! Excelente, na próxima vou-me embora com a scooter! Não tive outra alternativa senão correr todas as lojas de transporte e férias radicais instalados na zona turística de Senggigi. Acabei por encontrar um senhor que se propunha me levar de carro, pedindo em troca mais de dez euros! Tentei regatear mas o teimoso não descia quase nada o preço, daí que desisti da opção. Pagar cerca de dez euros na Indonésia para fazer um percurso de pouco mais de vinte quilómetros? Nem pensar, querem ganhar tudo de uma vez, não levam nada.

 

Por sorte um viajante francês, que se encontrava no estabelecimento em busca de um tour para o pico de Lombok, ouviu a conversa e intrometeu-se para propor uma solução. Ben, o viajante francês, explicou-me que tencionava alugar naquele dia uma moto de forma a poder fazer um percurso pela zona costeira da ilha. A sua proposta era que eu pagasse parte do aluguer, permitindo-lhe a ele obter um preço mais barato pelo mota e a mim chegar ao porto por por preço razoável. O aluguer de uma moto por um dia naquela estância turística é mais cara que a média indonésia mas, pelo que aprendera nos últimos três dias, nunca custaria mais que quatro euros, daí que aceitei de pronto a sua proposta e combinei um encontro com ele para as duas horas da tarde no bar onde costumava utilizar internet, a poucos metros da loja onde nos encontrávamos.

 

Ia eu a meio do almoço quando Ben chegou ao bar com más notícias. Não tinha conseguido alugar um moto pelo preço que desejava (dois euros e meio era o seu objectivo!) e portanto havia mudado de planos. E já não pretendia fazer o seu tour. Os franceses são, sabe-o bem quem anda na estrada a viajar, negociadores muito duros e procuram por norma alcançar acordos nos seus negócios o mais baixo possível. São uns fuinhas, hehe! Mas há limites, digo eu! Senão vejamos, num país em que em média se paga dois euros para alugar uma moto por dia, Ben tinha encontrado uma por três euros, tinha a garantia de eu pagar metade, e ainda assim recusou! Impressionante! Aparentemente só me restava um outra opção económica, apanhar por cinquenta cêntimos um bemo (mini-autocarro publico) até à capital da ilha, Mataram, e aí tentar encontrar um autocarro para a cidade portuária. Sabia que os preços eram razoáveis em mataram (três euros no máximo), no entanto esta alternativa apresentava um enorme risco: não chegar a tempo ao porto. Sim, a distância entre as duas cidades é muito curta, pouco mais de vinte quilómetros. Mas é preciso não esquecer que na Indonésia um autocarro só parte quando se encontra cheio, desafio que tanto pode levar dez minutos como um dia em meio a se concretizar. Derrotado, ofereci-me para pagar a totalidade do aluguer da mota ao francês (três euros) e pedi-lhe para ir buscar a moto de imediato, enquanto eu terminava de almoçar. Continuando em maré de (mini) azar, o senhor das motos a três euros pedia agora cerca de três euros e meio, o que levou o francês a voltar ao bar de mãos vazia! Ah, que paciência. Bebi o ultimo gole de sumo à pressa e fui pelas minhas próprias mãos pagar os três euros e meio e pegar na moto!

 

Arrancámos os dois, ele a conduzir porque insistia em fazê-lo e eu dava as indicações, visto que dois dias antes tinha realizado o mesmo trajecto (ler estória Uma vida num só dia em 3 partes: parte1, parte2 e parte3). Nos primeiros dez quilómetros caiu uma chuva torrencial que me deixou completamente ensopado, mas não parámos pois eu tinha pressa de chegar a tempo ao porto. Quanto ao Ben, rapaz muito bem prevenido, viajava com um oleado muito bom que lhe custara um euro e lhe cobria o corpo inteiro. Quando a chuva finalmente parou pedi-lhe para estacionar junto a uma lojinha na berma da estrada, onde pedi um café para aquecer enquanto trocava a t-shirt molhada por uma outra guardada na mochila. Chegados ao porto confessei-lhe que tinha sido um enorme prazer conhecê-lo, embora achasse que devia rever um pouco o seu extremismo económico. Trocámos endereços electrónicos, partilhámos um com o outro os endereços dos nossos blogs de viagem e despedimo-nos com a promessa que todos os viajantes sempre fazem, a de voltarem a se encontrar de novo algures neste planeta.

 

Dois dias antes tinha-me informado sobre os preços da travessia e a única resposta que obtivera tinha sido acerca de um pack de onze euros que incluiria a viajem no shuttle bus que entretanto perdera de manhã mais o bilhete de ferry-boat de Lembar a Pandangbay, na ilha de Bali. Por outro lado, dois dias depois, à conversa com outros funcionários, pediram-me apenas três euros e meio pela travessia de barco. Graças ao dono da scooter que de manhã havia chegado atrasado para a recuperar, perdi algum tempo procurando soluções, travei conhecimento com novas pessoas e acabei por poupar dinheiro! Em vez de onze, acabei por gastar três e meio vezes dois! E fiz um francês feliz alugando-lhe uma moto com o meu dinheiro! É o que se chama sinergia de viajem, hehe!

 

 

Já no ferry boat e, enquanto o sol não se pôs, entreti-me a olhar a beleza infinita dos mares e ilhas de encantar que compõem a Indonésia, esse país de múltiplas realidades que mora numa dimensão à parte do meu pensamento de viajante. Em nenhum outro país, até hoje, me pareceu tão vaga a consciência do tempo que leva o tempo a passar como na Indonésia. Até uma pessoa irrequieta e hiperactiva consegue realizar a proeza de ficar a olhar o mar, tranquilo, horas a fio, e só acordar para realidade porque a chegada do pôr-do-sol fez alterar o padrão de cores no céu e diminuir a quantidade de luz! Durante esta travessia de barco acordei de um desses sonhos acordado estava o sol a poucos segundos de se esconder por detrás da linha do horizonte. Com o tempo que me levou a tirar a máquina fotográfica da mala e preparar-me para disparar, nem sequer fui a tempo de congelar no tempo aquele sublime pôr-do-sol. Ainda assim acabei por tirar umas fotos para mais tarde recordar, possivelmente belas...

 

Quando se fez noite fui-me recolher dentro da sala de estar do barco, onde entrei numa dimensão oposta, uma de stress e claustrofobia causados por um enxame de vendedores ambulantes. Mil e uma vezes, um por um, vieram ter comigo tentar vender coisas que eu não precisava a preços que eu jamais aceitaria! Que inferno social! Para me abstrair daquela cacofonia, liguei o portátil escolhi um álbum de música, coloquei os auriculares nos ouvidos e pus-me a escrever estórias no caderno de viagem. Enquanto permaneci ali, avistei por duas vezes um homem alto, de aspecto europeu, mas acabei por perdê-lo de vista e não mais o encontrei dentro do barco.


Por volta das nove e meia da noite o ferry boat atracou no porto de Padangbay e, eu, um mês depois, estava de regresso à ilha onde aterrara vindo da Europa entusiasmado com a perspectiva de começar a minha primeira aventura no Sudoeste Asiático. Poucos dias depois de aterrar em Denpasar, capital de Bali, tendo já visitado alguns dos destinos turísticos cliché da ilha, decidi correr dali para fora o mais rápido possível. Poluição, sujidade, densidade populacional absurdamente elevada, demasiados milhares de australianos bêbados, comércio claustrofóbico de bens e pessoas. Não que eu não estivesse há espera de conspurcação do género, mas ainda assim fiquei surpreendido por ultrapassar o que eu tinha imaginado. De qualquer forma apenas tinha optado aterrar em Bali devido ao facto da viagem de avião mais barata da Europa para a Indonésia aterrar naquela ilha hiper-turística. Faz sentido. O que não faz muito sentido é um estrangeiro não conseguir movimentar-se facilmente pela ilha, pois os transportes para as zonas não turísticas ou não existem ou são um segredo bem escondido pelos locais. E daí até faça sentido, é a lógica mercantil levada ao seu expoente máximo, de certo mais por culpa de australianos esbanjadores que de balineses gananciosos. Um mês antes tinha tentado partir de autocarro para este mesmo porto de Padangbay, para fugir de Bali, mas não cheguei a concretizar a fuga dessa forma devido aos negócios absurdos que me haviam proposto: muitas dezenas de euros para uma curta travessia, instalado em autocarros repletos de luxos e mordomias que eu não queria nem precisava. Autocarros normais a preços locais nem sinal deles!


Um mês depois estava de regresso a Bali não porque tivesse grande interesse em viajar dentro da amaldiçoada ilha, mas porque tentava seguir o meu objectivo traçado, o de percorrer a grande linha de ilhas da Indonésia sem apanhar nenhum vôo, viajando de barco, autocarro ou à boleia desde a aportuguesada Flores (ao lado de Timor-Leste), que visitara semanas antes, até ilha de Sumatra junto ao continente asiático. Bali encontra-se a meio-caminho. E uma vez mais deparei-me com problemas de transporte. Não havia nenhum autocarro normal estacionado no porto à espera para transportar os passageiros do ferry boat. Para um barco do mesmo tamanho atracando numa outra qualquer ilha indonésia encontrar-se-iam por certo umas dezenas de autocarros. Ali não. Muitos dos passageiros do barco eram vendedores (os tais chatos, chatinhos) cujo destino deveria ser dormir no porto e fazer o percurso marítimo inverso no outro dia. Havia também alguns turistas estrangeiros que tinham viajado escondidos na primeira classe e que se deslocavam em direcção aos tais autocarros de luxo com destino ao sul da ilha. Pelo norte da ilha, rumo a oeste, nada, nem sequer um bemo para a terriola seguinte. Eu que tanto anseava atravessar Bali o mais rápido possível e partir à descoberta da ilha de Java,via-me ameaçado pela hipótese de ter de passar uns tempos extra na ilha não desejada.

 

Completamente entalado naquele fim do mundo, sem solução nenhum em mente, pus-me a praguejar furioso até ao momento em que vi um grande vulto caminhar na minha direcção. Era o mesmo ocidental que eu tinha visto no ferry boat, o único estrangeiro além de mim que viajara em classe económica. Vinha em busca do seu jipe estacionado atrás de mim. Eu, bem consciente que naquela pessoa residiria a única hipótese de me ver livre de Padangbay naquela noite, respirei fundo, afinei a voz e fui meter conversa com o senhor. 

 

Luís Garcia, 03.05.2016, Chengdu, China

 

 

 

 

 

 
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